Segunda-feira, 27 de Abril de 2009

Gripe dos bacorinhos

 

A minha crónica a ser publicada, na próxima semana, no jornal MAIS REGIÃO.

 

 

GRIPE DOS BACORINHOS

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Atchim.

Mais um espirro, mais um lago formado de baba e ranhoca esverdeada no chão da sala. Mais um chá atafulhado de mel e limão que queima a goela à sua passagem. Mais um pacote de lenços de papel para limpar as fossas nasais avermelhadas de tanta fungação e corrimento. Mais uma dose generosa de antibióticos, antipiréticos, analgésicos e anti-inflamatórios, que agora se chamam genéricos e perderam as suas caixinhas e formatos coloridos, mas que continuam a matar tudo aquilo que mexe dentro de nós: os vírus e o estômago!

Mais uma compressa de água gelada na testa, para acalmar os 42 graus à sombra. Mais uma esfrega de Vick Vaporub na peitaça. Mais um supositório… Não! Esqueçam lá essa coisa dos supositórios, pois já me sinto bem melhor.

O telefone toca, insofrido, a fazer-me lembrar que pior do que uma gripe infernal, é o barulho infernal de um telefone a tocar no meio de uma gripe infernal. Que Inferno! Grito eu, enquanto procuro as pantufas com os pés e dou balanço ao corpo para me levantar do sofá.

Depois de me arrastar pelo corredor, tropeçando em lenços de papel usados e caixas vazias de mebocaína, lá chego perto do aparelho e levanto o auscultador. Do outro lado, a minha avó.

Olá Vó. Sim vó. Pois. Então? Sim. Não. Sim. Ah, pois. Se calhar. Não não. Hummm. O quê?! Gripe do quê?!

42-19843791- Gripe dos bacorinhos! Dos porcos! A televisão não fala de outra coisa. Hoje de manhã até o Manel Luís Goucha estava a falar disso com a Cristina Ferreira. A Avó está a ficar preocupada com essa tua gripe… não há meio de te passar. Tens a certeza? Não é melhor ires ao médico fazer análises? Eles dão uma máscara e tudo. Pelo menos era o que a Alberta Marques Fernandes estava a dizer na televisão…

- Quem?!

- A Alberta! Aquela moreninha muito bonitinha que agora foi para os Telejornais da RTP. Hoje estava com um casaco cor-de-rosa tão bonito… e tem sempre o cabelo tão bem arranjado, a jeitosa. Ela bem falava da gripe, que eu ouvi. Anda tudo aflito e eu estou a ficar também aflita contigo, ao saber que estás nesse estado.

Não, não é nada disso. Essa gripe não se transmite assim. Eu nem sequer saí do país. Pois. Não. Não! Sim vó. Sim. Ah! Pois. Não. Humm. Sim. Hã? Talvez. Canja. Pois. Não. Não se preocupe, fique descansada que estou com a gripe dos bacorinhos, como você diz.

- Nem a das galinhas? Eu sei lá. Agora demos para apanhar as doenças dos bichos…

Não Vó. É gripe das normais. Daquelas que se apanham numa esquina qualquer. Beijinhos. Sim. Pois. Beijinhos. Não. Hã? Não. Sim, já. Hummm. Beijinhos. Xau. Não! Sim! Está bem…

Assim que poiso o auscultador, tal qual como nos filmes, surge na minha cabeça (ainda dormente) um flashback a preto e branco onde eu surjo a beijar a Consolacíon à porta da mercearia onde ela trabalha, depois dela me ter prometido um beijo carinhoso em troca de eu a ajudar a acartar uma dezena de caixas carregadas de couve lombarda e maçãs golden.

Consolacíon, uma jovem mexicana, 27 anos, busto firme e coxas fartas, acabada de regressar do México onde foi desfazer o noivado que mantinha com Pablo (mexicano, 34 anos, bigode farto e baixinho).

Comecei a sentir as pernas cada vez mais fracas, enquanto na minha cabeça se instalava uma vara de porcos que grunhia sem parar. Tentei alcançar o sofá mas acabei estendido no corredor, enquanto balbuciava:

- Consolacíon. Consolacíon. Avó! Consolacíon…

Ligar à minha avó foi a coisa mais sensata que me ocorreu naquele momento. Parecia informada sobre a gripe dos bacorinhos e agora, com a história da Consolacíon, tudo poderia ter mudado.

Estou?! Avó. Sou eu novamente. Estava aqui a pensar no que me disse e se calhar até posso ter mesmo essa gripe. Lembra-se da Consolacíon? Aquela rapariga que trabalha na mercearia do Sr. Antunes?...

- Aquela libertina? Não me digas que andaste metido com a mexicana?! Bem que o meu coração pressentia qualquer coisa! Ah filho! Estás desgraçado!

Sim. Pois. Se calhar. Não. Não! Hã?! Isso tudo? Não. Sei. Ah pois. Não. Nada disso. Sim. Sim. Pois. Talvez…

2 Comentário(s):

Anne disse...

Comentários á parte partilha.se a bela poesia de pessoa.

Saudações bloguistas

maestrina disse...

Não há nada melhor do que um leitãozinho consoliado....