Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

a árvore

Corre o vento veloz, contrastando com a serenidade dos resquícios de sol que ainda nos queimam a pele quando afastamos a cortina que cobre a janela da sala. Lá fora, por detrás do vidro transparente, a árvore contempla as folhas que se soltam de si, relevando no seu âmago uma espécie de impotência feliz. O vento sopra com força para se fazer sentir depois de uma estação adormecida. Sopra intensamente para derrubar da árvore as folhas caducas que recordam momentos esbatidos, cinzentos, que contrastam com o seu porte. / Soltam-se então algumas folhas. Perdem-se outras. O vento estranha a impotência da árvore e afasta-se do estado moderado. Sopra agora forte, fazendo sentir a sua presença e fazendo a árvore acreditar que está livre, como ele próprio. / A árvore parece ter esquecido o vento. Resguardou-se por entre as folhas e julga-se protegida. Mas nunca esteve. / Antes de voltar a ser vento, o vento foi brisa. Uma brisa presente até nos dias mais quentes, apesar de aparentemente distante. / Ninguém sabe o que acontecerá a esta árvore de Outono. Nem ela própria. A mudança de direcção e de intensidade do vento parecem assustá-la e por isso apressa-se a desfazer-se das folhas secas. / Liberta as folhas secas e as folhas belas que também são secas. Liberta as folhas despedaçadas e sem dar conta acaba também por libertar as outras, de cores quentes, pintadas pelo sol e que se misturam entre si. / O vento sopra com vontade. Para mostrar que voltou, trazido pelo Outono. Não traz catástrofes nem desastres naturais. Traz apenas o vento que já devia ter soprado há mais tempo. / A árvore, aparentemente forte, parece agora não se incomodar com o baloiçar dos seus ramos. Talvez não se incomode mesmo. Talvez se tenha habituado à sua presença ou à sua ausência. / Mas o vento, como é vento, não tem como desistir. Não tem como parar de soprar. Continua a fazer baloiçar a árvore numa dança fenecida com o aproximar de outra estação. / O que o vento não esquece são as folhas quentes pintadas pelo sol de que a árvore aparentemente se desfez. Guarda-as a todas, num montinho de folhas semeado na memória e espera juntar-lhe muitas mais. Pedaços da árvore, quentes, vividos, presentes, eternos. / E a árvore? É a árvore o mais importante. Mais do que o vento, mais do que folhas secas, mais do que tudo...



Outono - Tiago Bet...
há letras de músicas que não precisam de mais nada...

1 Comentário(s):

Fatima disse...

Belo texto.
Obrigada Manel.
Obrigada mesmo.
No meio da loucura que os dias são, sabe bem ter alguém que me faça parar. Que me "obrigue" a parar.