A minha nova crónica a ser publicada no jornal MAIS REGIÃO.
A MINHA ANA MALHOA
Encontro a Cátia Vanessa, a filha da D.Célia, lavada em lágrimas no elevador prédio. Primeiro tento o silêncio, mas o fungar e o soluç ar da pobre coitada não me dá margem de manobra. Tento então compor a coisa:
- Calma Cátia! Tem calma! Que se passa?
A Cátia Vanessa levanta as sobrancelhas, olha-me fixamente, volta a fungar e pergunta-me:
- Não me acha uma rapariga atraente?
Por breves momentos fico sem saber se rir, se chorar, se me atiro ao chão, se lhe dou três lambadas bem dadas nas trombas ou se simplesmente lhe viro as costas. Optei por nenhuma destas: Optei por responder, meio receoso.
- Sim. És uma jovem engraçada, simpática, filha de boa gente, trabalhadora…
- E atraente?! Acha-me atraente? – voltou a perguntar.
Vendo que as lágrimas não paravam de molhar o colo da jovem, resolvo não demorar mais a dar uma reposta concreta. Mentindo, claro. Não queria espezinhar ainda mais o ego da pobre desgraçada.
- Sim. Pode-se dizer que sim…
Nesta altura tive de fazer um esforço enorme para não dizer a verdade. Dizer-lhe que era gorda, feia, que aquela falha na dentição superior afasta qualquer um, que se veste mal, que tem os olhos tortos e que normalmente cheira muito a transpiração, iria fazer com que ela arranjasse forma de parar aquele elevador e que se atirasse no fosso.
Em tom baixo, talvez com vergonha, Cátia Vanessa voltou a perguntar:
- E porque é que nem toda a gente vê isso? Ainda hoje saí de casa capaz de fazer o trânsito. Linda, numa superprodução arrasadora, até fiz dieta e tudo! E nada… não serviu para nada!
- Sim, se saíste de casa neste preparo que agora encontro, eras bem capaz de fazer parar o trânsito, morrendo atropelada, por acharem que és um ecoponto. – Tive vontade de lhe dizer isto, mas contive-me.
Ela continuou:
- A Ana Malhoa está a fazer um casting para gravar um dueto e para arranjar alguém para actuar com ela nos espectáculos. Dava tudo para ser como ela. Dava tudo para ter passado no casting.
Assim que ouço a Cátia a falar da Ana Malhoa, certifico-me de que a minha pasta do trabalho não se encontra aberta, deixando vislumbrar a Playboy onde a artista se apresentou como veio ao mundo, que, por coincidência, tinha acabado de comprar no quiosque da praça.
- Mas, e que te disseram lá no casting? Foi a voz? Não gostaram da tua voz?
- Não! Eles não gostaram foi das minhas mamas!
Sem me aperceber, fico com o olhar colado no peito da rapariga.
- Pois. Demasiado pequenas?!
- Não! Demasiado descaídas!
Suspiro. Volto a suspirar e meço todas a palavras antes de as dizer, enquanto o elevador não chega ao 8º andar:
- Mas afinal quem é a Ana Malhoa ao pé da Cátia? Pense bem. Nada dela é verdadeiro. Lábios falsos, já para não falar dos peitos fictícios com forma de queijo limiano, piercings e furinhos em todo o corpo, tatuagens ordinárias espalhadas nos braços e nas pernas, roupa badalhoca, poses despropositadas, músicas degradantes, cabelo falso e pintado… Oh Cátia, tu perto dela és uma princesa.
A Cátia não disse mais nada. Calou-se. Até parou de chorar. Encostou-se ao espelho do elevador e estava aí mesmo, quando este parou, e eu me preparei para sair.
Já com um pé fora do elevador, a Cátia volta a chamar-me e pergunta-me:
- Posso-lhe fazer mais uma pergunta?
- Claro!
- Se acha tudo isso da Ana Malhoa, por que é que esteve este tempo todo a tentar esconder essa revista que tem na pasta?
As portas do elevador voltaram a fechar-se antes que eu lhe respondesse e aqui estou eu, até agora, a tentar encontrar uma resposta…