“Chamam-lhe o Carnaval mais português de Portugal. Talvez seja, façamos-lhe a vontade. Torres Vedras tem o Carnaval mais português de Portugal mas não tem o mais verdadeiro Carnaval de Portugal.
Não lhe quero tirar o mérito, a fama e a grandeza. O Carnaval de Torres Vedras apresenta-se desde sempre distanciado das importações brasileiras, apresentando alternativas populares e magotes descontrolados de pessoas que chegam para confirmar a fama da festa.
Torres Vedras tem uma espécie de indústria montada em torno do Carnaval. Uma real comissão, um site apelativo, grupos e grupos de foliões mascarados a rigor e a falta terrível de uma sonoridade que o identifique.
Os milhares de jovens que procuram este Carnaval enchem ruas gigantes de diversão nocturna, bem regada e bem mascarada. Mas lá o que se ouve são os martelinhos e as músicas da moda. Nada de muito português, portanto. Falta-lhe isso para ser o mais verdadeiro Carnaval de Portugal.
Essa verdade encontra-se no Carnaval da Nazaré. Sem a grandiosidade do seu congénere, sem a fama (e infelizmente sem o proveito), sem os milhares de pessoas que o visitam e sem as polémicas da censura em torno do computador Magalhães, o Carnaval da Nazaré é o único a revelar uma identidade musical própria que lhe injecta verdade e o torna único.
Os Nazarenos chamam-lhe “marchas”, mas em nada se assemelham às “marchas” no sentido puro da palavra que nos habituamos a ouvir por aí. As Marchas da Nazaré são músicas de ritmo apressado e por vezes descontrolado, trazem letras inspiradas naquilo que de mais verdadeiro a terra lhe oferece, cantadas “à moda da praia”, expressões, pessoas, intensidade, diversão, loucura, “cegadas”, luzes, ensaiados, bailes, verdade. A verdade que falta no Carnaval mais Português de Portugal.
A Marcha Geral deste ano do Carnaval da Nazaré traz na sua letra uma espécie de cartão de visita, mesmo a propósito daquilo que aqui escrevo: “Não há pai pó noss' intrude/A gente aqui tem de tude/ Basta vir apreciar/ Ensaiades acamades / Bem vestides e mal injorcades / Há pa todo o paladar/ É assim qu'a Nazaré/ Mostra a todos como é/ Este nosso Carnaval/ Temos latas e tambores/ Também se fazem amores/ Cm'a gente não há igual!”. - Escrevem-se exactamente como se cantam, com os trejeitos do sotaque e uma espécie de entoação disfarçada.
No Carnaval mais verdadeiro de Portugal as salas de baile existentes, todos os bares, cafés e espaços de diversão, recebem os ensaiados ao som dessa música. São ensaiados, não mascarados. Vestem-se muitas vezes com o primeiro casaco que lhes aparece à frente ou até mesmo com uma saia de roda e um avental. E aí ficam, durante horas, incapazes de arredar pé, com um ritmo louco no corpo e dezenas de letras coladas na boca. É uma espécie de magia. Uma magia difícil de explicar, que só vendo (e ouvindo) se acredita.
Venha ver então.
O Carnaval mais verdadeiro de Portugal está à sua espera.”
Texto que deverá ser publicado brevemente no jornal MAIS-REGIÃO (periódico com grande tiragem nos concelhos de Coruche, Mora, Salvaterra e Benavente), do qual sou colaborador há alguns anos.
Carnaval da Nazaré 2010
1 Comentário(s):
Obrigado Manel! Um texto com este sentido so poderia vir de ti! cada vez me impresionas mais! Estava a ler e ate me dava arrepios, porque o nosso carnaval e mesmo o que tu dizes! E uma vontade enorme de explodir, esquecer o dia a dia e aproveitar esses dias como senao houvesse amanha! E a marcha geral retrata mesmo isso! O nosso povo vive feliz esses dias, digam o que dizerem era bom que muita gente voltasse a sentir o Carnaval com tradicao e orgulho, evoluir, SIM! Mas mantendo bem patente o que tanto nos caracteriza, o nosso vocabulario, os nossos usos e costumes! Ninguem e igual a gente! Porque havemos nos de ser como os outros!
Blekut na America!
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