Terça-feira, 9 de Novembro de 2010

Quando nasci, nasci para sofrer…

 

6217891(2)Ora bem, só me falta embalar as peúgas brancas da raquete e dobrar bem dobradinha a bandeira de Portugal e tenho a mala pronta. Já lá enfiei uns fumeiros de Chaves, uma colectânea do melhor da Chiquita e um serviço de porcelana Bordalo Pinheiro, que me vão ajudar a matar as saudades deste rectângulo disforme nos próximos tempos. É oficial: Cansei-me disto. Vou pegar na mala de cartão e, tal qual Linda de Suza, vou cantar para outra freguesia.

Foi uma decisão tomada com alguma ponderação. Pelo menos a ponderação possível no meio de um anunciado corte de 5% no vencimento, aumento do IVA, dos descontos para o IRS, redução da comparticipação do estado nos medicamentos, aumento das taxas e de quase tudo o que havia para aumentar.

É mesmo assim, sem dó nem piedade. É que estes Bárbaros não fizeram a coisa por menos. (Quem diz Bárbaros, diz filósofos baratos de nome Sócrates)

Mas pronto, com um bocadinho de condescendência, eu até aceito todos esses aumentos e essa falta de consideração para com os trabalhadores (voilá, um grito sindicalista a roçar o comunismo) mas o que eu não posso aceitar nunca e sendo talvez o motivo maior desta minha decisão é o absurdo aumento do preço do leite com chocolate (depois de ter deixado de ser considerado um bem essencial). Isso é que não! Eu aceito tudo, menos viver sem Nesquik!

Se eu não fosse Sportinguista até podia fazer comparações entre o estado do país e o estado do clube da Maria José Valério. Cada vez pior, cada vez mais triste, cada vez mais no limiar do ridículo. Vergonhoso, descabido, sem orientação ou recuperação possível. No entanto não o vou fazer. Apenas porque sou Sportinguista e, como se isso não bastasse, Português. Há gajos que nasceram com um azar do caraças! (E podem parar já os nacionalistas ferrenhos! Não venham para cá com as moralidades do costume…) (Ainda por cima se forem nacionalistas com um vencimento base de vários ordenados mínimos. E há muitos por aí!)

A minha família ainda tentou demover-me desta minha ideia. Pediu-me encarecidamente que só o fizesse depois do Natal, época de paz e harmonia e confesso que esteve quase a consegui-lo. Mas assim que eu soube que a Câmara Municipal de Lisboa irá gastar mais de um milhão de euros em iluminações natalícias e que irão ser gastos mais tantos milhões num carro blindado para proteger o Barack Obama de atentados terroristas na cimeira da NATO, em Lisboa, disse logo um palavrão dos grandes e comecei a fazer as malas. Quer dizer, eu tenho de ficar sem o meu nesquik e o Obama vem para cá armar-se em importante? Oh pá, que se lixe o Obama e as luzinhas a piscar!...

Daqui a dezoito horas estarei a aterrar num outro país. A Dilma prometeu tudo de bom (como se diz por lá) e eu vou querer estar lá para ver. No fundo vou sair dum país disfarçadamente do terceiro mundo para um oficialmente do terceiro mundo. Se bem que o segundo me parece, neste momento, muito mais desenvolvido do que o primeiro…

Não vou com muitas expectativas, mas pelo menos por lá sempre se dança, mesmo com a conta a zeros. É que aqui já tenho a conta a zeros e nenhuma vontade de dançar. O Sócrates bem canta, mas não me alegra.

Volta linda de Suza, estás perdoada!

 

Nova crónica a ser publicada no jornal MAIS REGIÃO

2 Comentário(s):

turbolenta disse...

A sério?
Não posso acreditar!
Mas se for mesmo uma decisão eu tenho de apoiar. Tal como apoio a maioria dos jovens licenciados e que saem deste país para trabalhar noutro qualquer, cujas aptidões profissionais sejam mais reconhecidas, onde tenham melhor ordenado e onde se sentiam felizes a trabalhar naquilo que gostam e para os quais estão devidamente credenciados.
Por este andar penso que , daqui a algum tempo, este lindo país tem só reformados e pessoal com poucas habilitações a trabalhar nas obras ou os nossos licenciados a trabalharem nos centros comerciais.
É uma vergonha o mísero ordenado que pagam - e por especial favor- a quem andou tantos anos a "queimar pestanas".
Sempre incentivei os jovens habitantes da minha casa a um estudo aprofundado de outras línguas.Sempre lhes disse que tal conhecimento poderia vir a ser-lhes útil.
E parece que tal irá acontecer...
É que com a crise de emprego por cá, o melhor é procurar algo por outras terrinhas.
Vai mesmo para o Brasil? Os jovens que conheço e que estiveram a estagiar lá, adoraram e querem voltar!
E eu, se voltasse uns anos atrás e soubesse o que sei hoje, certamente não estaria aqui também!
Boa sorte

Dorix disse...

Manel, como sempre, adoro a tua escrita. Penso no que te disse e publica o livro.!!!!!