Sim. Confesso aqui. Sou altamente viciado em analogias.
Ontem as televisões e as rádios não se cansaram de anunciar os filmes nomeados para a festa dos Óscares. A Academia isto, a Academia aquilo, o júri isto, o júri aquilo e assim continuou.
Não foram precisos muitos segundos para que desse comigo a pensar nos critérios que o júri terá utilizado para as tão badaladas nomeações. Desconheço-os por completo mas de uma coisa tenho a certeza: os vinte ou trinta membros do júri, todos eles puderam visualizar a totalidade dos filmes a concurso. Julgo que se trata de um consenso, mais do que um seguir de critérios.
Cada um é como cada qual. Uns gostarão mais de ficção científica, outros de dramas de apelar ao kleenex, outros estarão mais interessados e darão mais importância à fotografia,à banda sonora ou ao argumento. São gostos pessoais mascarados de critérios ou democracia, mas que fazem sentido, porque todos eles viram os filmes…
Imaginem agora o seguinte: Imaginem que cada membro do júri poderia apenas assistir a um filme a concurso. Ficará a conhecer os outros unicamente pela opinião dos outros colegas que, tal como ele, também viram apenas um filme. Vá, dois ou três no máximo. No final terão de atribuir as estatuetas. Algumas dezenas. Não chegam para todos.
O Júri “A” que viu o filme “X” está encantado até agora com o argumento, mais do que as interpretações. O júri “B” que viu o filme “Y” odiou tudo o que viu. O júri “C” assistiu ao filme “W” e, mais do que tudo, adorou a banda sonora…
E agora eles irão avaliar. Preencher umas grelhas, seguindo uns critérios…
Mas a pergunta persiste: E se o “B” tivesse assistido ao filme “W”?! Será que também iria odiar? E ficaria o “C” tão encantado com a banda sonora do filme “X”?
Os filmes são acima de tudo elementos pessoais. Perdão, não os filmes, mas sim a forma como os vemos. É tudo uma questão de sensibilidade própria. Pode ser um bom filme para mim, um excelente filme para o vizinho do lado e um drama venezuelano para a vizinha de cima!
Então estamos bem como estamos. Todos os elementos do júri assistem a todos os filmes e depois, finalmente, decidem em conjunto qual deles merecerá a estatueta dourada.
Mas querem ver a surpreendente analogia que me ocorreu logo nesse instante?
Na avaliação de docentes, cada professor avaliador irá assistir apenas a uma aula de um outro colega. Talvez a duas ou três, mas sempre esse mesmo avaliador. O professor avaliado terá de se sujeitar à sensibilidade, ao gosto e aos critérios de um único professor avaliador. Haverão critérios definidos para para essa avaliação, mas, tal como já disse, não me parece que seja justo ou suficiente!
É o tal sistema de avaliação injusto que referi anteriormente…
O colega que me irá avaliar poderá ficar horrorizado com a minha forma de me relacionar com os alunos. Mas quem me diz a mim que, caso tivesse tido outro avaliador, não ficaria este encantado?
O colega que me irá avaliar poderá adorar a estratégia que eu utilizo para apresentar determinado conteúdo escolar. Mas quem me diz a mim que, caso tivesse sido outro avaliador, não acharia tudo muito rebuscado?
Pois…
Assim como no tal júri de cinema, também haverão professores avaliadores que darão mais ou menos importância a determinados parâmetros. Uns irão preferir os argumentos orais e outros irão preferir os efeitos especiais. Outros darão importância ao conteúdo, outros à forma…
É a tal sensibilidade, o tal gosto pessoal…
Leiam agora novamente o próximo parágrafo (que vos parecerá familiar) e digam-me se não fará igualmente sentido:
As aulas são acima de tudo elementos pessoais. Perdão, não as aulas, mas sim a forma como as vemos. É tudo uma questão de sensibilidade própria. Pode ser uma boa aula para mim, uma excelente aula para o professor do lado e uma aula vergonhosa para o professor de cima!
Para além de tudo isto, assim como nos óscares, na avaliação de docentes também não haverá prémios para todos. Apenas para alguns. Para alguns sortudos, diria.
Parece-vos justo?! Eu já nem coloco a questão de “por que razão aquele professor pode ser avaliador e eu não?!”. Deixo isso para outras páginas…
E é isto. Lembrei-me desta analogia. Afinal eu adoro analogias.
Não aponto culpados para esta situação porque os culpados andam lá nos gabinetes do Ministério e não têm tempo de se preocupar como estes filmes. Para eles parece estar tudo bem. Parece. Aparentemente.
Mas para nós, professores, não está. Não está nada bem.
Mas é este o filme que temos…
Tragam as pipocas.
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