EXCLUSIVO - Uma Não-Crónica da Corrida do dia 20 de Agosto, na Nazaré
Há quem lhe tenha tomado o gosto e agora lhe seja difícil abandonar a fama e os louros. Sou eu e o Cerejo, cada um à sua maneira. Nós dois bem tentamos, mas verdade seja dita: nem eu nem ele percebemos nada disto.
Mas que isso não seja impedimento para brilharmos (ou tentarmos, antes do declínio). Quero lá saber! Só paramos quando cairmos! – Pelo menos, eu, que ainda tenho algum brio.
Depois do triunfo alcançado anteriormente com os meus escritos, fui desta vez convidado pelo meu amigo Nuno Marques, cabo do Grupo de Forcados Amadores da Chamusca, para escrever umas breves palavras sobre a corrida realizada no passado dia vinte na Nazaré. Na verdade, ele pediu-me uma crónica mas eu logo lhe disse que eu não sei fazer crónicas. Deixo isso para quem sabe, (se é que alguém sabe). As crónicas tauromáquicas são uma coisa demasiado séria, quase cientifica, e têm de estar repletas de conhecimentos, imparcialidades e certezas. Ou então não são nada disso – que é o mais certo – e são apenas um texto de opinião de alguém com pseudo-conhecimentos, parcialidades e falsas certezas. E pronto, já disse o que andava aqui engasgado.
Não se via tanta gente no Sítio desde que as pevideiras de sete saias baixaram o preço do tremoço. Milhares de pessoas rumaram à até à mítica praça do Sítio para assistirem ao grande concurso de ganadarias e pegas, tão apregoado pela empresa que dirige o espaço.
Eu não sou de reparar em detalhes, porque me canso facilmente e não estou para isso, mas qual não foi o meu espanto quando vi o Rui Salvador a entrar em praça para lidar o primeiro da noite. Estranho! Ia jurar que nos cartazes expostos por aí, tinha lá visto em primeiro lugar o nome do Rouxinol. Mas deixem lá isso! Se calhar fui eu que bebi demais. Sete latinhas fresquinhas a acompanhar um pacote de queijadas de três euros e cinquenta, enquanto a culpa morre solteira e não se decide, de uma vez por todas, se é a alternativa quem manda ou o nome que mais enche praças.
Gostei de rever o Rui Salvador. Aliás, um Rui Salvador que tem andado por aí perdido em projectos, noutros trabalhos, de outras arenas. Revi nesta noite um Salvador dos tempos glorios, numa lide emotiva e triunfal de um exemplar de Paulino da Cunha e Silva Herd que primeiro andou a armar-se em esquisito mas que depois até usou as suas 39 arrobas para fazer o que lhe competia.
Diogo Timóteo, do Grupo de Forcados do Aposento do Barrete verde, consumou a sua pega à segunda tentativa, numa pega rija que levou o toiro a encostar, com pouca delicadeza, o moço da cara às trincheiras. A certa altura, com tanto barrete verde perdi-lhe o rasto, mas a pega foi boa, sim senhora. (agora tragam o hirudoid ao moço, se faz favor).
E porque nem só o festival da canção vive de pontuações internacionais e porque durante a a corrida se ouviam idiomas internacionais, também eu fui distribuindo as minhas notas ao longo da corrida, assessorado por ilustres emigrantes, assim, ao estilo Eládio Climaco no certame da RTP:
Ganadaria Paulino da Cunha e Silva Herd: France 10 points (França, 10 pontos); Azerbaijan 7 points (Azerbeijão, 7 pontos)
Diogo Timóteo – Aposento do Barrete verde de Alcochete: Spain 7 points (Espanha, 7 pontos)
Lá vem o Prudêncio, gritava um senhor de chapéu sentado a meu lado. Ainda pensei que o Prudêncio fosse o senhor das almofadas, mas o Prudêncio era o segundo toiro que saiu na rifa ao Rouxinol. Sortudo, o Peguense, ou o Pegoeiro, ou o Pegueirante (ou seja lá como é que se chamam os habitantes de Pegões), como vem sendo habitual, esteve no seu melhor registo, fazendo o público esquecer algumas hesitações no momento da cravagem (culpa do toiro, esse brincalhão, que adora jogar ao faz-de-conta-que-vai-mas-depois-não-vai). Palminho, parzinho (desta vez sem queda) e no final, palminhas. Próximo!
A segunda pega da noite foi protagonizada pelo Grupo de Forcados Amadores da Chamusca, nos braços e valentia de Igor Rabita. Não se tratou de mais uma pega, mas sim dA PEGA! A pega na noite. Uma pega violentíssima, que levou o Igor a viajar pela praça, heroicamente fechado à córnea, quando o toiro resolveu dificultar ainda mais a reunião do grupo. Os milhares de espectadores levantaram-se num momento apoteótico, exigindo posteriormente ao forcado duas voltas à arena. Podem encerrar as linhas telefónicas e terminar a votação. Estava encontrado o vencedor.
Ganadaria Prudêncio: Greece 11 points (Grécia, 11 pontos); France 12 points (França, 12 pontos)
Igor Rabita – Amadores da Chamusca: Netherlands 12 points (Holanda, 12 pontos); Angela Merkel 12 points (Alemanha, 12 pontos); All Europe 12 points (União Europeia toda, 12 pontos, porra!)
Este seria o parágrafo do Zé Manel Duarte. Seria utilizado para descrever a sua lide de um toiro Manuel Veiga. Contudo, ou eu não me lembro de nada, ou então não há nada para lembrar. Um toiro apagado numa lide apagada ou uma lide apagada devido a um toiro apagado. Um crítico (desses mesmos verdadeiros e que se acham os donos da razão) disse-me que o Zé Manel toireou o toiro ao contrário. Eu não faço a menor ideia do que é tourear um toiro ao contrário, mas fica aqui o registo para quem souber. Toiro ao contrário?! Isso supõe tirar as quatro patinhas do chão?
Ganadaria Manuel Veiga: Italy, 4 points (Itália, 4 pontos); United Kingdom 2 points (Reino Unido, 2 pontos)
(Eládio Clímaco interrompe a emissão. Segue-se o intervalo)
Durante o intervalo tive oportunidade de visitar a casinha dos horrores. Um wc sem água, sem toalhetes, sem papel, sem limpeza, sem praticamente nada do que se esperaria. Deixem mas é um gajo sair e urinar ao ar livre. Sempre podemos roubar um punhado de palha dos cavalos para limpar o que tem de ser limpo. (Pronto, amiga Rita, a menina pediu para eu incluir neste texto a degradação dos wcs da praça e eu fiz-lhe a vontade. Quem mais o faria? Quem mais?)
Ainda pensei guardar o que se segue para o fim. Sempre tive a mania de guardar o melhor para o fim, mas eu não tenho a total certeza de que o que se seguiu foi realmente o melhor. Palavra mágica: Cerejo! Pronto, começou a festa!
Tenho de aqui confessar que não foi o grupo dos amadores da Chamusca que me levou à praça. Gosto muito do grupo, mas declaro aqui: Não foi por vós que estive presente na corrida. Verdade verdadeira é que eu apenas comprei bilhete porque o nome de João Pedro Cerejo aparecia no cartel. Eu tinha de ver ao vivo, com os meus próprios olhos. Contado, eu não acreditaria…
João Pedro Cerejo quando sai pela porta dos cavalos já sabe que vai bater com as trombas no chão. É já um clássico nas suas corridas. No caso da corrida da Nazaré em vez da tromba, foi o rabo. Menos mal. Mas e depois? Porque é que tem de ser sempre o cavaleiro a ganhar?! Deixem o homem em paz!
Foi bem visível a determinação do cavaleiro que, assim que caiu do cavalo fez questão de se refugiar em local seguro, enquanto forcados e o mundo tentavam controlar o cavalo que ficou abandonado em praça. (Medinho? Hummm, não sei não) Quando todos esperavam que ele se entregasse à bebida em cima da pata do cavalo no Sítio, com direito a uma depressão controlada por ansiolíticos, para surpresa de todos, ele regressou à praça para terminar o que tinha deixado por terminar: qualquer coisa que nem eu nem ninguém sabe o que é.
Considero o Cerejo a prova viva da democracia tauromáquica. Verdade! Ele não faz a menor ideia do que é ser cavaleiro tauromáquico, mas lá está ele, incansável, sempre pronto para ser derrotado. Tem dinheiro, um estribo em ouro maciço (que deve valer uma fortuna nessas casas da moda que compram ouro ao desbarato), meia dúzia de cavalos, um camião dos grandes e pronto. É toureiro! Se for preciso até paga para actuar em vez de receber. E que mal tem isso, seus invejosos?
Não acho nada que ele se deve retirar. Acho que ele deve tentar até achar que é capaz (ou então até aprender a equilibrar-se em cima de um cavalo ou saber uma coisa tão simples quanto: devemos olhar para onde queremos espetar o ferro…) Se ele cair mais uma dúzia de vezes, paciência. Já dizia Paulo Coelho… “As quedas são apenas o princípio da caminhada”. Se bem que eu acho que, no caso do Cerejo, a caminhada chama-se Via-Sacra.
Claro que, assim como o público que se encolhia sempre que o Cerejo avançava até ao toiro, também este último, da Ganadaria Ruy Gonçalves, aparentava estar num estado de nervos do piorio. E quem não estaria, diante de Cerejo montado num cavalo? Pelo menos, enquanto ele está montado no cavalo em praça… que é coisa rara de acontecer.
De Alcochete, do Grupo de Forcados Amadores do Aposento do Barrete verde, João Salvação Barreto fez jus à bravura do toiro desperdiçada anteriormente e presenteou o público com uma excelente pega, digna de cabo, pois claro.
Segue-se a votação:
Ganadaria Ruy Gonçalves: Spain 7 points ( Espanha, 7 pontos)
João Salvação Barreto - Grupo de Forcados Amadores do Aposento do Barrete verde: France 11 points (França, 11 pontos); Denmark, 11 points (Dinamarca, 11 pontos)
Eu é que não sei o número de telefone da Sónia Matias mas se soubesse já lhe tinha ligado para lhe dizer uma coisinha. A jovem cavaleira tem a mania de, nos seus brindes, terminá-los com um “desde já peço desculpa se alguma coisa não correr como eu desejaria!”. Mas que raio, Sónia! Que falta de confiança é essa, rapariga? A menina ainda não leu o livro dO Segredo? Nós somos aquilo que idealizamos no nosso pensamento!
Então vai-se a ver e foi por isso que o toiro de Manuel Coimbra foi a coisinha mais apagada que passou por aquela praça! É bem feita, para não agoirares!
Contudo, das poucas vezes que o toiro se moveu, a Sónia, uma das cavaleiras mais acarinhadas na Nazaré, aproveitou.
Um crítico, desses que têm a razão absoluta explícita nos seus textos, é da opinião que o director de corrida (Dr. Nuno Nery), não deveria ter dado música à jovem cavaleira. “Se o toiro não presta, culpe-se também por isso quem está em cima do cavalo!”. Aqui se vê que os críticos não percebem nada disto. Se a pequena até esteve bem (no pouco que conseguiu mostrar), então porquê penalizá-la com uma lide sem música? Vá, Nuno Nery, agite lá esse lenço branco da renova para agitar o melão dos críticos…
Nuno Marques, cabo dos Amadores da Chamusca, chegou-se à frente e consumou à primeira tentativa numa pega com muito mérito. (Ora o toiro ia para a esquerda, ora para a direita, ora para o raio que o parta…). Quem sabe, sabe.
Ganadaria Manuel Coimbra: zero points.
Nuno Marques – Grupo de Forcados Amadores da Chamusca: Italy, 10 points (Itália, 10 pontos); United Kingdom 11 points (Reino Unido, 11 pontos)
Descobri nesta noite que o João Ribeiro Telles é o Ginja. Não me perguntem porquê, mas o João é o Ginja para os amigos. E como eu até simpatizo com o jovem, permitam-me que o trate dessa forma. Ginja, my friend.
Pois bem, o Ginja esteve muito bem com o toiro de Pégoras, numa excelente actuação que transformou o toiro a determinada altura num mostruário de ferros coloridos, tal não foi a empolgação do jovem e do público. Não tanta do director de corrida que, por momentos, demonstrou estar um tanto incomodado com a insistência do Ginja em colocar ferros atrás de ferros…
Ganadaria Pégoras: France 10 points (França, 10 pontos); Azerbaijan 10 points (Azerbeijão, 10 pontos)
Finalizado o espectáculo, foram chamados à praça todos os intervenientes para a entrega dos respectivos prémios.
Nessa altura, eu e as minhas assistentes, encerrámos as votações, despedimo-nos do Eládio Climaco , juntámos os pontos e rapidamente chegámos à conclusão de que os vencedores seriam a Ganadaria Prudêncio e o forcado Igor Rabita, dos Amadores da Chamusca. Sem grandes dúvidas.
A ganadaria confirmou-se.
E quando a praça ansiava ouvir o nome do jovem Igor, o senhor do microfone saiu-se com um “houve um empate”.
Olhei para os meus votos e reparei que, a haver empate, só poderia ser com a pega do cabo dos Forcados Amadores do Aposento do Barrete verde, a segunda classificada, segundo a justa votação.
Esperei que houvesse um desempate ou que anunciassem claramente quem tinha ficado empatado. Até pensei que seria o Cerejo quem decidisse o vencedor, uma vez que ele percebe disto para caramba, mas não.
Não foram anunciados os empatados (nem os vencedores) mas sim uma novidade: os três grupos disputarão novamente o referido troféu na próxima corrida a realizar na Nazaré, no próximo dia 8 de Setembro. Foi assim uma espécie de rebuçado envenenado embrulhado em alguma injustiça. (será que a empresa do Campo Pequeno espera ter novamente casa cheia? A uma quinta-feira?!)
Claramente o Igor Rabita dos Amadores da Chamusca merecia ganhar! Mas a justiça será feita no próximo dia 8! E eu vou lá estar…
… Embora cheio de pena pelo facto do Cerejo não fazer parte do Cartel! Isso é que era de valor!
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